Coronavírus: as redes sociais, a ciência e os mercados em alta

pessoa sentada em um ponto de ônibus se protegendo do coronavírusO ano de 2020 já começou com uma notícia histórica: a pandemia do Coronavírus. A doença tem se espalhado por dezenas de países no mundo inteiro e toda a comunidade científica se une, hoje, para tentar combater seu avanço e seus danos. Em meio a notícias muito trágicas, também há um lado da questão que sempre fica mais oculto nos livros de história: o cotidiano dos habitantes, sua reclusão em casas e o que tem emergido de interessante (e até positivo, na medida do possível) em relação a tudo isso.

Desde que o Coronavírus tomou proporções maiores no Brasil, governadores de Estado têm tomado medidas firmes para deter sua proliferação. O fechamento de comércios, de escolas e de todas as atividades não-essenciais têm seguido recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Com isso, a maior parte da população segue em quarentena, mudando significativamente a dinâmica econômica preestabelecida.

Nada de restaurantes, teatros, cinemas. Nada de festas, bares e multidões. Com a rotina restrita às próprias atividades caseiras, a população precisa reinventar seus hábitos e se apoiar em outros tipos de serviços e entretenimento. Embora a perda seja forte para a maior parte do comércio, há alguns negócios que, pelo contrário, têm até mesmo crescido durante a crise.

Quais são os mercados favorecidos pela situação?

Em sua maioria, esses mercados estão estritamente relacionados à ciência e ao tratamento e prevenção do Coronavírus. Em matéria do G1 de março, registrou-se que a Inovio Pharmaceuticals, empresa de biotecnologia estadunidense, já tinha alcançado um crescimento maior do que 100% no valor de suas ações. Isso porque ela é uma das várias empresas pelo mundo que tem desenvolvido uma vacina de combate ao Coronavírus, de nome INO-4800.

As ações da Moderna Therapeutics, primeira empresa a obter uma vacina experimental, também subiram 42%. Em relação a tratamentos, a Regeneron Pharmaceuticals também teve um aumento de 10% no preço de suas ações, sendo responsável pelas pesquisas da cura da doença. A Top Glove, maior fabricante de luvas médicas, também obteve avanços.

Além do setor científico, também há outras atividades ganhando com isso. Serviços tecnológicos no geral têm crescido muito – tanto na área do entretenimento quanto em relação a plataformas educacionais e de trabalho.

No primeiro caso, tem-se como um exemplo mais claro o serviço de streaming Netflix, usado no mundo inteiro. A empresa sediada na Califórnia esteve em alta nos últimos meses, com crescimento considerável de suas ações. No Brasil, a provedora de filmes teve até mesmo que diminuir a qualidade dos seus vídeos para evitar o colapso das transmissões – tal era o aumento nas visualizações.

Já no segundo caso, com plataformas educacionais e de trabalho, tem-se o exemplo da Zoom Video Comunication, própria para reuniões de trabalho. Ela é uma startup que teve uma valorização de 60% durante os últimos meses, enquanto outros mercados caíam. Com esse aplicativo, pode-se realizar videoconferências entre empresários ou mesmo reuniões entre professores e alunos.

Comércios eletrônicos também têm crescido muito durante o período. O estoque da gigante Amazon chegou até mesmo a ficar escasso, promovendo indiretamente a compra online em outros sites menores de venda.

Aplicativos de comida também têm se beneficiado da situação. A Uber, empresa que oferece caronas, teve uma queda de 70% com a diminuição da demanda por transporte. Mas a UberEats tem uma tendência enorme a crescer (embora isso aconteça, muitas vezes, às custas de seus entregadores).

Em uma conferência em São Francisco, Dara Khosrowshahi, CEO da Uber, declarou no dia 4 de março: “Certamente nosso negócio de transporte, na medida em que as pessoas parem de sair de casa, sofrerá um impacto, enquanto nosso negócio Eats provavelmente se beneficiará”.

O convívio familiar, o contato pelas redes sociais e a cultura online

Os mercados mudam e as relações sociais também. Quem tem o privilégio de ficar em casa com a família (e quem tem o privilégio de ficar em casa) pode colher muitos frutos disso. Afinal, para muitos, tem sobrado um tempinho a mais para fazer refeições junto com os parentes, e quem sabe até assistir um filme online.

São várias as plataformas de streaming que oferecem filmes e séries, afinal, e hoje também há vários portais que oferecem peças teatrais online e até mesmo visitas em museus famosos. O Metropolitan Museum of Art, importante museu localizado em Nova York, nos Estados Unidos, oferece uma visita 360º por alguns de seus cômodos mais importantes: O Grande Hall, Os Claustros do MET, O Templo de Dendur, a Galeria de Armas e Armaduras.

O Museu do Louvre, maior museu de arte do mundo, localizado em Paris, também tem disponibilizado diversas salas para visita online: entre elas, as Antiguidades Egípcias, a Galeria Apollo, o Advento do Artista e os Restos do Fosso do Louvre.

homem estudando durante coronavirus

E não só de arte vive o homem. A internet também tem proporcionado diversos encontros divertidos à distância: seja pelo aplicativo Zoom, já citado acima, ou mesmo por Skype, Google Meet e Google Hangouts. As redes sociais têm sido o escape e o encontro de diversas pessoas, e seu papel social tem sido repensado – deixando de ser encarada como um mal da sociedade para ser vista como uma ferramenta importante em tempos de isolamento.

Até mesmo web-festas têm sido realizadas online. Uma república da cidade de São Carlos (SP), onde se encontram muitas faculdades, promoveu uma festa no dia 22 de março pelo aplicativo Discord (geralmente usado por gamers). A Escola de Comunicações e Artes da USP de São Paulo também realizou uma de suas festas tradicionais pela internet, pelo Habblet. O seu evento no Facebook contava com 902 comparecimentos e 527 pessoas interessadas. Os estudantes já estão pedindo pela segunda versão.

A ciência como ferramenta essencial de uma sociedade

Outra das principais coisas positivas que se sobressaíram às tristezas dessa doença foi o reconhecimento do papel da ciência como autoridade importante. Em um momento em que as pessoas se isolam para ter mais controle sobre um vírus que ainda não tem cura, cientistas do mundo inteiro se desdobram para descobri-la.

As múltiplas tentativas de formular uma vacina e as muitas tentativas de criar um tratamento são observadas em jornais por toda parte. Por mais que ambos passem por um processo demorado até sua efetiva confirmação, eles ainda podem salvar muitas vidas depois de prontos.

Os destaques, até agora, vão para um medicamento australiano e para duas vacinas chinesa e estadunidense.

Um estudo na Austrália publicado no dia 3 de abril demonstrou que um remédio usado para curar verminoses inibiu o crescimento do Sars-Cov-2 em 48 horas. O procedimento foi feito em uma cultura de células, mas ainda não se sabe quais seriam as doses seguras para serem usadas por humanos, nem se teria a mesma efetividade. O estudo foi liderado pela Monash University em parceria com o Doherty Institute of Infection and Immunity.

Já as vacinas de destaque, até agora, têm sido desenvolvidas tanto nos Estados Unidos quanto na China. Ambos os países já começaram a fazer testes em humanos. Nos EUA, essa fase ocorreu com 45 participantes, no Instituto de Pesquisa em Saúde do grupo Kaiser Permanente. A empresa responsável é a Moderna Therapeutics, cujas ações subiram 42% (como já citado anteriormente).

Na China, a testagem clínica ocorreu com 108 voluntários. Todos são da cidade de Wuhan e serão acompanhados durante 6 meses para averiguar os resultados.

Infelizmente, o processo todo é um pouco demorado. Jorge Kalil, professor de imunologia clínica e alergia da Faculdade de Medicina da USP, com ampla experiência como diretor do Instituto Butantan, deu entrevista à editora Abril no final de março falando sobre o tema. Ele afirma que não teremos uma vacina pronta para ser utilizada em menos de 18 meses – 1 ano e meio.

“Precisamos entender se as candidatas que estão em análise são seguras, se não trazem nenhum efeito colateral, quantas doses são necessárias para gerar anticorpos”, explicou.

Apesar disso, a procura por notícias como essas é notável, e é um dos sinais mais claros do quanto a sociedade tem dado valor para o desenvolvimento dessas ciências e pesquisadores.